Mostrando postagens com marcador metropoles. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador metropoles. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Faustão acertou em sua crítica e não foi para Bolsonaro – Brasil tirado a limpo




Amauri Nolasco Sanches Junior

Eu assisto o Faustão a muito tempo e sei que ele faz críticas genéricas de todos os governos. Durante os 30 anos de Rede Globo, Fausto Silva, foi o único apresentador com uma certa liberdade de fazer críticas de tudo, desde a produção até o governo que está lá. Para mim não há nenhuma surpresa que ele faça esse tipo de crítica e isso fica bem claro, como o Faustão é isento em seus comentários. Faz muito tempo que não vejo televisão, porque se eu tenho serias críticas a esses canais (leia-se: TODOS), eu tenho que ser coerente com aquilo que eu critico e não vejo aquilo que eu critico. Então, não sei em que formato está o programa Domingão do Faustão, porém, eu vejo o Faustão desde 1989.

A questão é que temos uma população que não tem uma escola boa, onde ensine a interpretar textos, interpretar falas que, muitas vezes, nem tem nada daquilo que as pessoas interpretam. Isso, também, tem muito a ver com a questão dos valores do respeito ao outro, daquilo que você não gosta e daquilo que você gosta. Não acho que o brasileiro de um modo geral, seja um povo conservador nos costumes, porque, muitas vezes, trai a confiança, não tem fidelidade nenhuma com a ética e escondido, nem mesmo com a moral. Isso se chama, hipocrisia. Não acredito que um povo que viveu numa cultura corrupta (até mesmo na religiosidade, deturpando as falas de Jesus), queiram continuar nessa cultura hipócrita em que nos encontramos. Quem não respeita as vagas das pessoas com deficiência? Quem não sabe andar num shopping center? Eu fui atropelado – lembrando que eu estava numa cadeira de rodas motorizada – em um shopping center numa tarde de domingo que eu tinha o direito de estar lá. E ainda, vai e doa dinheiro para o Teleton, que nada tem a ver com a inclusão. Mas, isso vai muito além disso, a crítica do Faustão é uma crítica geral da nossa cultura. O Faustão disse:

“Na hora do Carnaval, na hora da seleção, o brasileiro, e nós sabemos muito bem, é um povo que tem união, tem solidariedade, tem uma integração. Por que isso não acontece nas coisas sérias? Lutar por educação, saúde pública, contra a corrupção, contra a incompetência, que é uma forma de corrupção. O imbecil que está lá – e não devia estar – pode até ser honesto, mas é um idiota que está lá e está ferrando todo mundo. Você paga imposto e o que você recebe? Vamos ver se esses novos ares vão mudar”.

O Faustão faz referência ao povo na primeira parte, que quando há carnaval, jogos de seleção brasileira e “porcarias” afins, as pessoas se unem para torcer ou ficar na “putaria” (não faço media mesmo). O brasileiro tem um espirito de rebanho por natureza – Nietzsche iria dizer bem isso mesmo – pois, quer agradar todo mundo para ser aceito dentro da sociedade. Veja as redes sociais. Eu não acredito, que todas essas pessoas estudam política, leem algum livro sobre política ou escrevem sobre política. No mesmo modo, vão a igreja ou seguem alguma religião só porque a maioria vai ou segue, nada é tão volátil do que o gosto musical do brasileiro. Nos países que tem mais estudos e tem valores mais sólidos, o gosto musical é o mesmo, as músicas são afirmativas (nada de voltar ao passado), as músicas são alegres e inteligentes. O que temos no carnaval além de copulação e coisas sem cultura nenhuma? O que temos em igrejas pentecostais e neopentecostais, do que a procura aos bens materiais e nenhum viés espiritual? A integração do nosso povo sempre houve no viés de sempre conseguir algo em troca, alguma vantagem.

Daí o Faustão pergunta: Por que isso não acontece quando é coisas serias? A seriedade do povo brasileiro acaba quando a sexta-feira chega, que o sujeito enche a cara de bebida, enche a cara de balada, vai no puteiro e depois fica gritando que quer moralidade no governo. Como disse, eu sou uma pessoa coerente daquilo que eu tenho de valores, não nego por causa dos outros e nem valorizo demais pelo mesmo motivo. Voltando ao Faustão, ele continua dizendo, que não há o mesmo empenho de união – do mesmo modo na putaria e na espiritualidade fest-food (que você passa duas horas em uma igreja e acha que está bom) – quando é para lutar para ter educação, para ter saúde e coisas afins o povo não se une. Faustão erra em colocar educação e não escolarização, mas, se você falar numa escolarização há vários pensamentos que, muitas vezes, entra em conflito. Na verdade, um ensino de verdade é isento de ideologias e religiões, para respeitar os valores familiares. Saúde sempre a mesma conversa.

Contra a corrupção aí o debate é bastante extenso, porque tem a ver com a ética. Corrupção tem a ver com corromper e só corrompe valores quando não temos tais valores. Não estou dizendo valores religiosos (mesmo o porquê, vários corruptos presos se dizem cristãos e conheço muito cristão que trai a mulher ou o marido, que seria uma forma de corrupção), estou dizendo valores éticos. Quando você dá caixinha para o lixeiro, presente para motorista, o dinheiro do café para não tomar multa, você está colaborando para corromper um sistema que é feito para todos e não só para você. Você respeitar um ministro do Supremo ou em outras instancias é cautela, você respeitar um cadeirante em sua vaga inclusiva, na preferencial ou no seu simples direito de ir e vir é ético. Ética não é não fazer, e sim, respeitar o outro como um ser humano e isso que o Faustão está dizendo. Quando você não é cometente naquilo que você faz, sendo um serviço essencial, você de alguma maneira está sendo corrupto.

Por fim a história do imbecil. O Faustão sempre chamou os presidentes e políticos de imbecis ou outras coisas. Isso não poderia e não deveria ser nenhuma novidade. Segundo o Google, primeiro, que o imbecil seria aqueles indivíduos que tem uma inteligência curta, tolo, idiota, aqueles que tem muito pouco juízo. Segundo, é aquele sujeito sem forças ou um fraco. Sempre um imbecil não pode estar numa chefia ou num cargo maior, por não ter forças para manter a questão governamental. Ou seja, é um idiota que só está lá (mesmo honesto), para atrapalhar o sistema de gestão social e gerar mais burocracias para prejudicar o básico da população. Portanto, sem tocar em nenhum mérito de nenhum político, a questão vai além do novo presidente e vai além das questões gerais. É uma crítica genérica que vai muito além de especificações ideológicas ou religiosas, é uma crítica pontual e deve sim, ser feitas, deve sim ser expostas.

Democracia é isso, temos o ponto e o contraponto.




quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Paixão e amor – será que estamos confundindo?






Resultado de imagem para paixão e amor







Amauri Nolasco Sanches Junior

Acho que há uma confusão entre paixão e amor. Paixão, etimologicamente, vem do latim “passio – onis”, que deriva de “passus” que é princípio passado de “patī” que tem o significado, sofrer. É um termo usado para um sentimento muito forte em relação a uma pessoa, objeto ou tema. A paixão é uma emoção intensa convincente, um entusiasmo ou um desejo sobre qualquer coisa. Mas, vem do latim já, como sofrer e o sofrimento é dor, você não pode amar quando está doendo alguma coisa. Já amor, vem do latim amor que tem o mesmo significado com o português, que é um sentimento muito nobre e sem sofrer. Muitos estudiosos dizem que o termo amor que é derivado da base AM, de uma língua indo-europeia e essa mesma base, deu origem do termo mãe. Ora, qual amor maior a não ser da mãe? Nenhum.

A questão gira em torno do amor que não tem sofrimento, não sente dor ou qualquer desejo destrutivo ou egoísta, que talvez, vem confundindo até mesmo os filósofos. Platão, por exemplo, dizia que o amor é aquilo que falta em você. Ora, tudo aquilo que te falta é sofrer aquilo que você não tem, e isso, queiramos ou não, traz um sofrimento naquilo que não temos. Mas, podemos ter outras coisas que fazem de você alguém diferente e a humanidade precisa ter uma pluralidade, porque tem a ver com liberdade. Amor tem a ver com liberdade. Se você já tem uma essência definida, se você tem uma personalidade já construída, você já é um ser humano definido. Só que não é bem assim, os gregos antigos (ou helênicos), estavam errados enquanto a isso. Além de sermos seres em construção constante, somos seres que temos liberdade de escolha. Os pensamentos mais modernos e contemporâneos – mais no existencialismo – o ser humano se constrói a partir dos valores sociais que estão inseridos dentro da educação familiar e na educação escolar (que muitas vezes, é exigida pelos próprios pais na escola). Daí, quando você se apaixona – alguns pesquisadores dizem, que a paixão tem dois anos de validade – você tem seus valores que vão ou já formaram, seu caráter e sua subjetividade.

O interessante, voltando aos gregos helênicos, que eles tinham um termo que era “pathos” que significava, paixão. Mas, também, existem outros significados como excesso, catástrofe, passagem, passividade, sofrimento, assupeitamento, sentimento e doença. Ou seja, tudo que gera sofrimento e o apego a alguma coisa. Agora, porque tem um outro lado, sem uma certa paixão (como um tipo de tesão), não podemos amar e continuar amando um outro sujeito. Tem que ter uma certa atração para o amor romântico prevalecer. Porém, há de ter um certo equilíbrio dentro do amor romântico. O problema é o apego. O apego começa a se apegar como o outro é e começa a se espelhar no outro e esquece, muitas vezes, de si mesmo e começa a esquecer de quem você é. Quem somos, verdadeiramente? Será que não é um convite filosófico desde Sócrates e Platão? Entre conhecer a si mesmo, até mesmo, sair da “caverna” da ignorância e sair para o conhecimento e com o conhecimento, ver a realidade de fato. Chegar a verdade (alethéia) é só, segundo Platão, pelo conhecimento. Mas, como dizem, o amor é para ser sentido e não para ser racionalizado.

Só que há um outro problema – filósofo é a mosca varejeira da sociedade – somos seres sentimentais, mas, também, somos seres racionais. Chegamos ao aluno de Platão, Aristóteles, que dizia, que somos racionais e por isso, somos animais políticos. Por outro lado, Aristóteles dizia que o amor verdadeiro é o amor de amizade. Aí chegamos num ponto interessante: o amor não pode nascer numa amizade? Eu já expliquei antes que os gregos viam o ser humano, como um ser definido e já construído em seu caráter (ethos), então, se ele fosse um ferreiro, por exemplo, ele não seria outra coisa a não ser um ferreiro. E para os contemporâneos – que começa com os modernos – o ser humano não tem nenhuma definição, portanto, o amor romântico (que é bastante recente) é uma construção. A família como conhecemos – mesmo a direita se espernear – é uma invenção capitalista contemporânea que inventou a imagem de uma família “perfeita”.

O amor tem que ser perfeito? Não sei. Talvez, nenhum filósofo tenha conseguido chegar na essência da questão. Platão confundiu com paixão (por causa, da sua época). Nietzsche, pulando para a contemporaneidade, confundiu com “putaria”. A liberdade tem que transcender ao senso comum, que acha que ter liberdade é fazer o que queira, mas, nem sempre podemos fazer o que queremos. Se eu não tiver a quantia certa, eu não posso tomar um sorvete. No mesmo modo, se a pessoa não me ama – colocando a questão do amor romântico – por questões de até respeito consigo, eu não poderia amar a pessoa.  Então, pensando assim, não é aquilo que te falta que faria você se apaixonar pela pessoa e sim, aquilo que é correspondido como um “gostoso” bem-estar. Aliás, gostoso é aquilo que te dará prazer, mas, não é qualquer prazer, é o prazer de sentir confortável com a situação ou com que está sentindo. O que é agradável? Entramos na subjetividade.

Para Sartre, o amor entre casais é uma alienação mútua para se entregar um ao outro, assim, se esquecer o que é. A subjetividade tem a ver com isso. Por que eu tenho que me esquecer de si mesmo, para amar alguém? Lógico que a sua vida não vai ser igual, mas, não pode ser um esquecido de si para o outro te aceitar. Sartre está errado em parte. Porque existem casais que sabem quem são e nem por isso, não se amam. Mais uma vez, se confundiu paixão (egoísmo) e amor (gostoso), porque o amor não pode ser alienado, senão, vira paixão. Se há alienação é apenas uma atração, porque não se tem um sentimento, mas, só corpo, só o material. Aí entra a paixão pelo material e a sociedade e suas convenções, porque essas convenções são morais de anos ou séculos, que funcionaram só naquele momento e agora, pode ser que não funciona mais. Por que as pessoas colocam os bens materiais? Por que o amor tem que ter certas responsabilidades? Ninguém sabe. Porque todos repetem convenções sem saber o porquê daquilo tudo. Só que há uma diferença entre romper as convenções e fazer um bacanal, por exemplo, porque nos dois dos casos, você não está sendo você mesmo e está sendo um gorila.

Ora, gorilas podem amar de outra forma. As linguagens animais são pouco estudadas, são pouco analisadas e não se sabe, se eles têm sentimentos. Eu estou dizendo que os seres humanos se entregam ao instinto, porém, somos seres racionais e sentimentais. A consciência. A consciência é um fenômeno de perceber o outro ou outra coisa, como algo fora de nós mesmos. Num modo cartesiano, a consciência é a percepção de si mesmo, porque o outro começa a ser uma dúvida, uma realidade que pode não existir.  A consciência, também, pode desenvolver um senso de capacidade de avaliar se aquilo é ou não é, prazeroso para nós. Por isso dizemos que eu tenho a consciência que o refrigerante é gostoso, como, que jiló é amargo. A questão é que, quando nós amamos, nós temos a consciência que a pessoa nos agrada e essa consciência, depende muito daquilo que nos atrai. Sartre erra na alienação, porque a alienação é o esquecimento de si mesmo, mas, se esquecemos de si mesmo não podemos amar. Temos que perceber o outro e seus atributos corporais (sexuais), seus atributos sentimentais (amor) e os atributos espirituais (as virtudes), que muitas vezes, são confundidas como morais. Porém, entendo como uma lei moral, uma lei social para a harmonia e não para a individualidade do ser humano.

 Então, acho eu, sou um spinoziano. Para Spinoza, nós temos o “conatus” (esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento), que seria um impulso da vida, como se acordássemos de manhã e a nossa energia tivesse fraca (tristeza) e durante o dia, e essa energia vai nos afastando daquilo que vai te entristecendo. Claro. Tudo que te traz prazer vai te trazer alegria, mas, o conatus de Spinoza também faz parte de uma outra coisa. Para o filósofo, os sentimentos podem diminuir ou aumentar, a energia do conatus e essa energia pode te entristecer ou te alegrar. Mas, depende de nós mesmos se alegrar ou se entristecer e o amor, como tantos sentimentos, pode aumentar o impulso e esse impulso te alegra e te mostra o quanto você pode compartilhar essa alegria com o outro, com a capacidade de compartilhamento. Porque, afinal, o amor entre duas pessoas é compartilhar sentimentos e momentos a toda hora. Mesmo se estiverem em silencio, com as mãos dadas e juntinhos, aquele momento é único e é um compartilhamento daquilo, daquele agora.

E é isso, o amor não é uma prisão, não precisa ser. não é algo que te falta, não é algo que precisa ser uma eterna “putaria”. Existem momentos para a sexualidade e momentos para o carinho, não se precisa separar as duas condições, mas, sempre equilibrar elas.  O equilíbrio mutuo. O equilíbrio que pode levar ao sublime. Os sertanejos (se poderíamos chamar isso de sertanejos), erram em dizer que amor é sofrer, quem sofre não é o amor de se alegrar, de se sentir o gostoso da companhia, no afeto verdadeiro, é apenas acasalamento. O prazer por prazer. Isso nada tem a ver com a moral religiosa – que seria um radical ao contrário – mesmo o porquê, não precisamos ir a um outro extremo. Mas, valores que respeitam a si mesmo como um ser humano, valores que podem conter a verdadeira liberdade de não se importar com os outros. Afinal, é mais liberto aquele que beija mil bocas, ou aquele que beija uma e bem beijada? Precisamos dessa liberdade? Nos encontramos no lixo? Não. Precisamos de uma certa dignidade, um certo respeito consigo. O amor é único, o resto, é só modinha.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Vamos parar de chamar o Teleton de ajudador de pessoas com deficiência? É apenas, assistencialismo





Resultado de imagem para assistencialismo




Amauri Nolasco Sanches Junior

Quem me conhece, sabe que eu tenho um restrito relacionamento com a AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente), por ser um ex-paciente deles. Entre 1983 até 1990, eu fiquei na antiga unidade da Paulista na escola Rodrigues Alves e de 1991 a 2000, na Oficina Abrigada de Trabalho na unidade da Mooca fazendo, trabalhinhos. Então, eu sei muito bem, que a avaliação de se pagar (porque a entidade se paga sim), é por renda familiar – que as vezes, não bate – e avaliação por tratamento, é se eles conseguem enrolar as pessoas. Como fazem 18 anos que não ponho os pés na entidade, eu não sei como está. Mas, o texto é sobre o programa Teleton.

Primeiro erro é dizer que o Teleton vai ajudar as pessoas com deficiência, porque o programa ajuda a AACD que é uma entidade particular. Não importa se é uma associação, é uma entidade que é privada e tem uma diretoria empresarial que transformaram a entidade de reabilitação, em uma empresa e ponto. O resto é papo furado. Você paga – pouco, mas, paga – e o SUS paga quem não pode (pelo menos, antigamente era assim). Existem pessoas com deficiência que conseguem tratamento lá por critérios misteriosos, porque existem outras pessoas com a mesma deficiência, muitas vezes, não são aceitas. Assim, nem todas as pessoas com deficiência, são aceitas e fazem tratamento na AACD e nesse interim, o Teleton não ajudam todas as pessoas, mas, só a entidade em si. Eles estão certos? Sim. Se pensarmos num modo bastante liberal, como uma entidade privada, eles têm o direito de ter critérios e trabalhar com esses critérios. Só que existe um grande problema, a AACD também recebe dinheiro público de quem paga imposto. Recebem doações. Portanto, a AACD não é tão particular assim, porque a sociedade paga pelo imposto, ainda, dá uma graninha no Teleton para ter o bonequinho.

As outras unidades – pelo que eu sei, o terreno da central (Vila Mariana) é ainda da prefeitura – foram construídas com dinheiro de doações, dinheiro social. Tendo em vista que esse dinheiro social é pouco, precisam de mais, de mais, porque não tem o que sustentar a entidade e os encargos dos funcionários. Por isso mesmo, é uma associação. Empresários dão uma mensalidade todo mês – como todo associado – para sustentar tudo isso que você vê no Teleton. Na pratica, bem radicalmente mesmo, não é tão privada assim. Assim ó...tudo que é privada tem que ser sustentada por eles mesmo, quando é algo sustentadas pela sociedade, acho eu, é público.

Segundo erro é mostrar pessoas com deficiência para arrecadar mais doação como um apelo sentimental, induzindo as pessoas, a acharem que estão ajudando as pessoas com deficiência. Pode ajudar algumas, mas, não todas. Todas as pessoas com deficiência ou a grande maioria, é atendida pelo SUS ou quem pode pagar um convenio pelas restrições da própria entidade. Ora, a entidade e o caso que eu trago aqui, é um caso clássico de restrições de classes (mesmo eu não sendo marxista), porque envolve quem pode ou não, pagar um tratamento decente. Mesmo que você não concorde com isso, tem que enxergar que no Brasil, existem milhares de famílias que não pode cuidar de seus deficientes. Segundo pesquisa de um tempo atrás, uma pessoa com deficiência em média gasta R$ 5 mil reais por mês em remédios, cadeiras de rodas ou outros aparelhos, fora a comida e o vestuário. Quem pode pagar nesse país esse dinheiro todo?

Isso transcende e muito a discussão política de ser esquerda e direita, tem a ver com dignidade humana. A dignidade humana vai muito além de esquerda e direita, de entidades caça niqueis ou algo parecido, dignidade humana é ter um tratamento decente, é poder ter acessibilidade, é poder ser educado e trabalhar. E vamos combinar, todos tem um pouco de hipocrisia, porque reclama que está atrasado no ônibus quando um cadeirante vai subir, para na vaga das pessoas com deficiência no estacionamento, fica olhando feio quando casais com deficiência ficam se beijando e tudo mais. Depois doa no Teleton. Será que é encargo de consciência? Não sei. Mas a maioria, sim.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

A polarização da velha política brasileira




Resultado de imagem para esquerda e direita


Amauri Nolasco Sanches Junior

Lendo o livro do jornalista Franklin Martins “Quem inventou o Brasil? ”, que fala das músicas politizadas da história da nossa republica, vi que a política não mudou nada. Se no começo da nossa republica (velha republica), havia a política do café com leite (São Paulo e Minas Gerais), depois da Era Vargas, a questão ficou mais no desenvolvimento do Brasil. Eu vejo que o Brasil, em toda a sua história, se sabota, seja proposital ou seja não intencional, mas, quando o Brasil começa a se desenvolver, a política faz algo para não acontecer esse desenvolvimento. Eu não acho que há uma polarização dentro da política – a tradição brasileira sempre gostou que o Estado interferisse em certos assuntos (progressismo) e sempre quis liberdade de cultuar, comprar, fazer o que quiser (liberalismo) – porque há medidas que poderíamos chamar de esquerda, há medidas que poderíamos chamar de direita. Na verdade, os dois lados (esquerda e direita), começaram a se “aproveitar” da revolta de 2013 para difundir as suas políticas e isso, para quem olha acima da montanha, fica bastante claro.

Com a queima do Museu Nacional (que a comoção não durou dois dias), e na mesma semana, a facada ao deputado Bolsonaro, podemos ver a quão errada está a política do nosso país em dicotomizar assuntos que deveriam ser um só. Quando o museu pegou fogo e suas cinzas ainda chamuscavam, os alunos e funcionários da UFRJ (responsável pelo museu), faziam atos em nome do que estava lá dentro. Lembrando, que partes da própria universidade pegou fogo anos atrás e que era questão de tempo até o museu virar cinzas. Foi um ato de esquerda. Porém, manifestações da direita (ridículas), comparando o Museu Nacional com a exposição, “Queermuseu” é forçada, ainda mais, usar isso para criar uma oposição a Lei Rouanet. Pelo que eu sei, nenhum político ou o pessoal da direita fundou uma fundação para cuidar do Museu Nacional. Usar como meio político é um grande atentado a arte. Por outro lado, quem vai determinar o que é ou não arte? O povo não lê nem os links que compartilhamos. Na verdade, o povo não lê nem a bíblia que tanto falam, tudo que repetem é o só a interpretação do pastor.

Os conservadores não sabem nem o que estão falando. Não existe conservadorismo com liberalismo e não venham dizer que no Brasil é diferente, pois, o pessoal daqui sempre fica fazendo “gambiarra” para caberem no seu discurso. Errado. Liberalismo é uma forma de mudança, seja econômica ou cultural, para o Estado interferir menos na economia e na sociedade em geral. Você acreditar numa moral cristã, não necessariamente, te fará um conservador e sim, um adepto a moral cristã. A moral cristã não é universal, só é adepta quem segue a religiões cristãs que povoam nosso Brasil. O Brasil é laico. Ser laico não é ser ateu, ser laico é assegurar que seu povo pode manifestar sua religiosidade sem ser censurado. Israel, por exemplo, é um Estado laico e democrático. Mesmo abrigando três maiores religiões do mundo.

A facada que o Bolsonaro recebeu, é o reflexo de tudo isso. O indivíduo ao mesmo tempo que tinha medo da Maçonaria – tenho bastante adeptos no meu Facebook, aliás – e medo do discurso do deputado, segundo seu depoimento. Vamos falar do medo. Lembro quando uma senhora entrou no Congresso Nacional e viu uma bandeira do Japão e disse que o Brasil já estava virando comunista (como se houvesse algum país comunista no mundo), mostrando como o pânico junto com a ignorância, podem ser coisas bastante letais.  A questão do medo são as questões das próprias crenças que temos com a realidade que nos cercam. Meu avô materno sempre teve medo de lobisomem, vivia com as luzes acesas na época (quando o bairro era um matagal só), porque eram as crenças dele que o lobisomem existia alimentada, talvez, por programas de rádio. Nada justifica uma facada, um tiro ou qualquer coisa do tipo, mas, há uma reflexão por traz muito maior do que isso. Adélio Bispo tem as crenças da maioria religiosa (seja de partidos ou religiões), que carregam crenças de muito tempo, só que, ele é um maníaco que levou a cabo a ação que levou o deputado ao quase, morte. Quantos “loucos” podem ter no Brasil que acreditam nesse discurso de ódio e de eliminar o adversário político?

A esquerda tem a dicotomia de pobres e ricos. A direita tem a dicotomia de conservador e não conservador. Na verdade, as ideologias aqui no Brasil se confundem por causa do pouco estudo que temos e por ainda, sermos uma democracia bastante recente. Como disse, se confunde moral com conservadorismo político, que são coisas extremamente, distintas. Como essa coisa de rico e de pobre, que no mais, ajuda a difundir o discurso do poder que você nunca crescera e mesmo com estudo, nunca vai alcançar nada. A modernização do Brasil (a verdadeira), só vai ser alcançada quando realmente, tivemos um investimento na educação. Mas não é só isso, o pessoal tem que entender que se polarizarmos tudo aqui, não conseguiremos entender nada da situação do Brasil. A questão de corrupção não é só de esquerda e também, não é só aqui no Brasil, não somos o único país que tem corrupção. A ignorância e o desprezo ao conhecimento e ao estudo, leva ao ato de fazer coisas que não se podem fazer. Podem ter diploma, mas, se não tiverem ética, a educação não será completa.

domingo, 9 de setembro de 2018

The Undateables e a “paralitica” da UnB





Resultado de imagem para pintura cadeirante


Amauri Nolasco Sanches Junior

Imaginem pessoas diferentes com suas aparências que não são tão comuns para a sociedade, querendo, como outras pessoas, acharem seus pares para amarem. Porque, se essas pessoas são seres humanos, são como humanos e querem amar e ter uma vida como todo mundo.  Claro, que poderíamos colocar como um estereotipo do amor romântico, de ter o outro para cuidar e ser cuidado, de ter segurança para ter um relacionamento. Mas, logicamente, por serem diferentes, são vistos como pessoas a margem da sociedade. A questão mostrada no seriado documentário, The Undateables (algo como “Os Insuportáveis”), mostra o universo das pessoas com deficiência britânicas que tem uma vida normal, porém, não podem se relacionar por causa das suas deficiências. É claro “abiguinhos”, que ser uma pessoa com deficiência na Grã-Bretanha é muito diferente, em ser uma pessoa com deficiência no Brasil. Meu irmão mora na Irlanda, sempre me mostra pessoas com deficiência circulando normalmente entre os pedestres sem muito atrito (lá a maioria tem motorizada). Então, me impressiona essa diferença brutal, tanto cultural (onde pessoas com deficiência tem um tipo de trabalho, agencias de relacionamento não tem departamento diferenciado, pessoas com deficiência moram sozinhas e etc), quanto numa maneira estrutural (acessibilidade plena), num mundo onde as pessoas não subprotegem pessoas, mas, colocam as pessoas com deficiência como pessoas.

Onde quero chegar? Na série, isso fica bastante marcado, os pais não tentam tirar a ideia de um relacionamento com o outro. Muito pelo contrário, acham que os filhos deveriam sim ter um relacionamento com outras pessoas. Com todas as suas limitações, o físico Stephen Hawking, se casou duas vezes e teve filhos no primeiro casamento. A questão, pelo menos para mim, é olhar a pessoa e não a deficiência, porque a deficiência é uma característica que pode ser superada com a pessoa, com seus pensamentos, com seus relacionamentos, com a maneira de causar impacto e empatia ao outro. Daí começa a questão, porque há ainda, muito forte no nosso país, uma imagem de “coitado” que deveríamos esquecer de vez, mas, ainda é muito forte no nosso país.

Li na semana passada, que uma mocinha com paralisia cerebral, estudando na UnB, estava com dificuldade em deixarem a irmã de 11 anos a ficar no alojamento de estudantes, porque a mãe tinha que ficar com ela. Ora, vamos aos fatos, que me levam a escrever esse texto. Primeiro, o site Metrópoles usou o termo “paralitica” que além de ser errado, ainda transforma as pessoas com deficiência em meros “coitados” que precisam ser sempre amparados. Nós que escrevemos notícias, temos que ter extremo cuidado com as palavras, que podem ser interpretadas e assimiladas de forma bastante, erradas. Segundo, todos tem o direito de ter ou não uma pessoa consigo em qualquer lugar, mas, acho que deveríamos rever esse tipo de pensamento de dependência. Quando eu estava na FCD (Fraternidade Cristã de Pessoas com Deficiência), eu fiz minha primeira viagem aos 16 anos de idade, no interior, com os companheiros de movimento. Não tinha muito independência e também, tenho a mesma deficiência que a mocinha, paralisia cerebral. A paralisia cerebral não causa paralisia no cérebro ou algo desse tipo, mas, é uma falta de oxigenação na hora do parto, e alguns casos, podem ocorrer casos uterinos e até, por causa de meningite. Porém, raciocinamos tão bem, como qualquer ser humano.

Acima de qualquer discussão é salientar que devemos sempre acreditar e defender a inclusão. Incluir é deixar a pessoa ter um convívio dentro da sociedade e aprender a fazer adaptações para viver dentro dessa sociedade, pois, temos que adaptarmos cada vez mais a ela e vencer algumas barreiras. Por incrível que pareça, a questão moral e ética são questões bastante difíceis, por causa da nossa cultura. Uma cultura que gosta de “varrer para de baixo do tapete”, uma cultura que ainda sustentam associações assistencialistas, uma cultura que enxerga as pessoas com deficiência como “anjos” assexuados ou pessoas que atrapalham a vida cotidiana da sociedade. Uma sociedade que se diz tolerante, mas, não gosta de ver o diferente e o que acha ser, errado. Mas, o que seria certo ou errado? O que seria aquilo que deve ou não, ser aceito? A questão é quase uma questão subjetiva, porque vele a visão de cada pessoa como pode ver a cultura e a sociedade como um todo. Nosso povo acha que ser cidadão só envolve o nicho de cultura e comunidade que estão acostumados, e não é bem assim, existem outros setores que são tanto quanto brasileiros.

O que me incomoda é que esse tipo de escolha sejam escolhas padrões, assim, universidades não precisam ter acessibilidade para podemos frequentar. Que as pessoas com deficiência, sejam vistos como pessoas que não podem se virar, que não podemos ser felizes longe dos nossos pais, que não podemos ter uma vida. Inclusão não é ter só uma rampinha para a mamãe ou o papai, empurrar sua cadeira como um neném com um carrinho. Na maioria das vezes, quem olha feio para mim quando estou com minha noiva, não é quem está passeando (existem pessoas que acham bonito), mas, pais de pessoas com deficiência que não gostam de ver um casal namorando. Ainda mais, dois cadeirantes com paralisia cerebral. Por que? Não querem que sofram, não querem que se decepcionem, não querem que se frustrem. Mas, eu amadureci, graças a atitude dos meus pais de não me protegerem, de deixarem eu me decepcionar, de me frustrar e até mesmo, sofrer. Ninguém morre por causa do sofrimento, ninguém morre por ficar frustrado, a questão, é a nossa cultura de subproteção.

 O sofrimento não vai fazer as pessoas com deficiência, se transformarem de cristal. Frustrações não vão fazer s pessoas com deficiência, em sofredores eternos e que não podem superar essas frustrações. Somos humanos e temos sentimentos, mas, como todo ser humano, temos a razão e a racionalidade. Com a razão podemos mostrar que podemos superar algumas dificuldades, assim, podemos ser independentes com nossa deficiência. O que vi ali, foi nitidamente, um retrocesso a inclusão de pessoas com deficiência que deram a razão de não adaptação da universidade, ao não convívio aos colegas (como se alguma colega não pudesse ajudar a mocinha), ao de tomar decisões que no futuro, vai ser importante. Mas, como disse, cada um escolhe o que agrada. Só espero que essa escolha não seja padrão.